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teatrochik / estrevista com Ronaldo Ciambroni


ENTREVISTA COM RONALDO CIAMBRONI
por Alberto Nishitani
alberto@teatrochik.com.br

“Eu era obrigado a adaptar a peça infantil à adulta: colocava passarinhos pendurados no lustre!”

"Na peça 'Romeu e Romeu' eu quis mostrar que dois homens podem se amar."

"Ninguém sabia o que era 'bofe' (machão bonito). Divulguei essa expressão nas minhas peças."

"Eu sou um ator. Faço papéis de homem e de mulher. Sou um cabide para qualquer personagem."

TeatroChik - Fale um pouco do começo de sua carreira. Você começou fazendo teatro infantil?

Com Cristina Ciambroni e Sandra em "O Palhaço Imaginador"

Ronaldo Ciambroni - O meu forte foi o teatro infantil, durante um bom tempo. Até hoje gosto muito de escrever para crianças, porque venho do programa "Vila Sésamo". Comecei na década de 70 (dezembro de 1969) com "Pop, a garota legal", uma peça infantil. Essa peça tinha um enfoque diferente, porque questionava a história da cegonha. Ela desmistificava isso, e jogava uma sementinha para a verdade. Naquele tempo ainda era um tabu muito grande falar de sexo para crianças.

Em seguida, veio "Menino não entra, menina não entra", que era sobre o relacionamento de meninos com meninas, e também sobre as pessoas aprenderem a dividir o que têm. Em Portugal a peça foi considerada comunista e foi proibida (aqui foi proibida também). Imagine só que absurdo!

Em 1974, recebendo o Prêmio Molière

Depois, veio "O Palhaço Imaginador", que foi a primeira peça interativa: as crianças brincavam com o palhaço e davam um destino para o personagem. A platéia interagia com os atores, e dava ênfase à criação. As crianças participavam totalmente do espetáculo, e usavam a imaginação. Ganhei, assim, o primeiro Prêmio Molière. Nessa época eu já estava escrevendo "Vila Sésamo".

Fui o primeiro ganhador do Molière para espetáculo infantil, porque não existia essa categoria ainda. No mesmo ano fui indicado como ator por "Donana" (1974), e ganhei um prêmio pelo conjunto dos trabalhos (incluindo "Adeus, fadas e bruxas", que foi um espetáculo de grande produção, muito bem cotado pela crítica). Eu levantava a bandeira do teatro infantil.

Com "Adeus fadas e bruxas" eu questionava o porquê do teatro infantil não ter o respeito da própria classe. Os donos de teatro não davam nenhuma atenção. Eu era forçado a adaptar a peça infantil à adulta. Então, se à noite o cenário da peça era um gabinete e tinha lustre, eu tinha de colocar passarinhos pendurados nele!

Tudo isso foi me deixando muito aflito, e então resolvi fazer "Adeus, fadas e bruxas", um grande musical. Convidei Emílio di Biasi, que só tinha dirigido teatro adulto anteriormente, e também Ivete Bonfá, Vic Militello, Edwin Luisi, Cristina Pereira, Ricardo Blat. Atores que eram muito respeitados no teatro adulto (todos famosos, hoje), apresentando o espetáculo no horário das 21h (para o pai poder levar a criança). Porque se ele levava o filho ao "Holiday on ice", poderia também levá-lo ao teatro para ver "Adeus, fadas e bruxas".

Acabei ganhando o Molière, e daí veio uma seqüência de espetáculos. E eu sempre ganhei prêmio com meus espetáculos. Dei um tempo e voltei com "A vaca Lelé", ganhando o segundo Molière.

Ciambroni (à direita) em cena de "As Alegres Comadres de Windsor"

TeatroChik - O que você fazia em "Vila Sésamo"?

Ronaldo Ciambroni - Eu era um dos autores. Escrevia e fazia a música também. É uma alegria colocar esse programa em meu currículo! Foi inovador. Eu escrevia a versão brasileira. Adaptava alguns textos, mas como Naum Alves de Souza criou alguns bonecos brasileiros (o marinheiro, D. Hortênsia), eu dei personalidade a eles. Fiquei muito tempo escrevendo para esses bonecos. "Vila Sésamo" era um programa cultural. Hoje estou trabalhando em um projeto infantil parecido (não posso revelar mais detalhes).

TeatroChik - Sônia Braga integrava o elenco do programa?

Ronaldo Ciambroni - A Sônia Braga começou com teatro infantil. Ela era do grupo de teatro de Santo André e fez um espetáculo infantil de minha autoria. Fez também "A Guerra do Cansa Cavalo" (espetáculo que inaugurou o Teatro Municipal de Santo André). Ela era daquele grupo e depois fez "Hair", ficando cada vez mais famosa. E foi trabalhar em "Vila Sésamo". Como eu não escrevia a parte da vila (que era o núcleo dela e do Armando Bogus), não tínhamos muito contato. Conversava com ela nos restaurantes. Fui encontrar com ela (um encontro não muito feliz) em "Antonio Alves, o taxista" (novela do SBT de 1996), depois de alguns anos.

O jovem Ronaldo Ciambroni

TeatroChik - Nessa novela você reescreveu o texto original?

Ronaldo Ciambroni - Eu fui convidado para adaptar o texto. Só que, chegando lá, eu não podia mudar nada. Porque o diretor era argentino e não entendia português. Ele tem mais dificuldade para entender a língua do que nós. Era um problema. Eu tentei dar uma certa brasilidade ao texto, porque achava a novela muito local. Ela foi escrita para a Argentina. E o Antonio Migré foi o primeiro autor de novelas no Brasil: a primeira novela gravada aqui era um texto dele.

Isso criou um problema muito grande. Ela não estava satisfeita com a personagem e colocou a culpa em mim. Discutimos, e ela foi muito dura comigo. Mas eu não podia fazer nada, porque a novela não era minha. Acabei sendo um tradutor da novela (não me considerava um adaptador).

TeatroChik - Ela saiu da novela?

Ronaldo Ciambroni - Ela chegou cinco dias antes da gravação, ficou uma semana. Gravou cinco capítulos (que foram regravados) e teve uma discussão com o produtor. Viajou para o Brasil e não retornou mais para a Argentina. Então as pessoas entenderam que ela estava saindo, quebrando o contrato. Essa briga deve estar até hoje na justiça. E só depois de um tempo é que ela pediu desculpas (através de um amigo maquiador, de uma certa forma). Ela sabia que eu não tinha culpa. Eu era apenas um tradutor e não podia mudar a personagem dela.

Ronaldo em montagem amadora

TeatroChik - Fale um pouco da peça "Tucunaré, a filha da lua".

Ronaldo Ciambroni - Foi um dos últimos textos infantis que eu escrevi: uma lenda indígena. O sol e a lua tiveram uma filha (que era uma luz) e depositaram essa luz numa vitória-régia do amazonas, para que ela protegesse a mata. Tucunaré transformou-se, então, na guerreira defensora da mata, símbolo da ecologia. Foi um espetáculo muito rico e bonito, mas pouco visto. Era muito caro, e eu não tinha cacife para manter o espetáculo como produtor. Mas este ano eu volto com essa peça.

TeatroChik - E "A vaca Lelé"? Como era essa peça?

Ronaldo Ciambroni - "A vaca Lelé" foi uma alegria, porque escrevi de maneira muito singela e simples. Pedi para os atores falarem com sotaque caipira, e a Neusa Maria Faro fez isso divinamente. Dirigiu o espetáculo com músicas da Gilda Vandembrandt (que é uma grande parceira, atual diretora de "As Filhas da Mãe").
Quando eu comecei, eu escrevia as músicas e o texto. Com o tempo, achei melhor não me prender a uma coisa que não estudei. Chamei a Gilda para fazer as músicas e ela aceitou prontamente. E em "A vaca Lelé" tudo deu certo! Num momento de tanta violência, super-heróis, guerra espacial, metralhadoras e robocops, surgiu um espetáculo que falava da natureza de maneira singela: uma vaquinha que tinha anseios e sonhos.

Lelé queria sair do curral e do pasto. Ela encontrou no seu caminho personagens que ensinaram muitas coisas. Ela encontrou a cigarra (que estava sempre feliz), a galinha (que cuidava dos filhos), o pardal (que era livre). Até que ela conheceu o medo: todos falavam que era o touro, mas ela não ficou com medo dele. Ela foi laçada pelo homem, e só então conheceu o medo.

Ciambroni em foto de 1975

TeatroChik - Como era a história de "O Palhaço era Meu Tio"?

Ronaldo Ciambroni - Eu escrevi três peças com palhaço. "O Palhaço Imaginador" foi a primeira, onde um palhaço que distribuía propaganda encontrava-se com algumas crianças. Ele estimulava a imaginação e a criação, para que não ficassem massificadas pela propaganda. Foi na década de 70 e me rendeu vários prêmios. Depois escrevi "O Palhaço era Meu Tio", e em seguida "Se essa rua fosse minha", que era uma continuação.

"O Palhaço era Meu Tio" mostrava a vida no circo. O tio já estava velho, à beira da morte (a peça era ambientada na década de 40, a era do rádio). O tio passa todo o aprendizado para o Zé, seu sobrinho. O tio morre, e Zé toma seu lugar. Foi a primeira peça infantil que questionou a morte, apresentando-a como uma substituição: nada é eterno.
O tio fala para o sobrinho: "Lembra aquela casa grande com a figueira? No lugar dela tem um prédio muito bonito". O sobrinho recebe do tio lições de vida: "O circo sem palhaço é como doce sem açúcar". Mostrava a vida como um ciclo.

TeatroChik - Como foi a produção de "Este mundo é um arco-íris"?

Com Ana Claudiah Vidal e Patrícia Rinaldi ("As Filhas da Mãe")

Ronaldo Ciambroni - A Nídia Lícia era, no bom sentido, a mafiosa do teatro infantil. Um grande sucesso! As pessoas queriam ver os espetáculos da Nídia e do Alceu Nunes. Eles dominavam o teatro infantil pelo bom-gosto, pela capacidade de administração e pela qualidade dos espetáculos. Eles contratavam sempre profissionais de qualidade. Eles me chamaram para escrever "Este mundo é um arco-íris", onde as personagens eram cores. Com a fusão dessas personagens, nasciam outras cores. Foi uma experiência muito boa.

Escrevi junto com o Alceu (que era sócio da Nídia), e é engraçado que as peças que eu escrevi com outra pessoa tiveram algumas complicações. "Para onde vai a escuridão quando a gente acende a luz?" foi outra. Pela dificuldade de me encontrar com o co-autor e esperar a aprovação dele para as montagens, eu acabei liberando outros textos. Então nunca deu muito certo. Essas duas experiências que tive (pode ser uma coincidência), foram assim.

Ciambroni em "As Filhas da Mãe"

TeatroChik - Algumas coisas funcionam e outras não.

Ronaldo Ciambroni - É verdade, é complicado. "Para onde vai a escuridão quando a gente acende a luz?", por exemplo, o produtor me apresentou só duas páginas: um folheto com a história do menino. A idéia estava lá, mas eu escrevi toda a peça: quarenta páginas. Dei vida àquelas personagens de um pequeno conto. A peça ficou ótima. Recentemente, o autor (nem sei se ele a reescreveu, ou o que aconteceu) me mandou um convite para a reestréia da peça, e não tinha o meu nome nos créditos. Não recebi nenhum tipo de satisfação.

TeatroChik - Estranho isso.

Ronaldo Ciambroni - Então eu simplesmente abandonei esse texto. Fiquei magoado. Acho que eu deveria ter sido pelo menos mencionado no programa.

TeatroChik - Porque você trabalhou no projeto inicial e deveria haver pelo menos uma observação.

Ronaldo Ciambroni - Exatamente. Pelo menos um esclarecimento: "Esta é uma outra adaptação, não tem nada a ver com a outra versão". Porque eu também me tornei dono dessa história.

Inaugurando o "Teatro Municipal Ronaldo Ciambroni" da Estância Balneária de Mongaguá

TeatroChik - Qual foi o ponto de partida para escrever a peça "Adeus fadas e bruxas"?

Ronaldo Ciambroni - Na época os super-heróis faziam muito sucesso. Só se falava em Homem-Aranha, Mulher-Maravilha, e todos os grandes super-heróis. A criança estava muito envolvida com a violência. As personagens da peça (fadas, feiticeiros, gnomos, duendes, príncipes, princesas, bruxas) se reuniam em Encantalha (um lugar na imaginação). O objetivo era discutir por que eles falharam, por que eles não existem mais na cabeça das crianças.

Até que eles conhecem uma criança (Ricardo Blat, que atuava divinamente) interessada só em robôs e em apertar botões. Pegando tudo pronto sem criar nada. Foi um resgate dessas personagens, substituídas pela máquina. É importante a tecnologia, mas existe o perigo da frieza. A peça é um alerta a isso.

Um fato interessante: alguns atores fizeram testes para a peça e um rapaz deixou de fazer um dos feiticeiros porque fez muito sucesso na música: Ney Matogrosso. Os "Secos e Molhados" apareceram na mesma época que os "Dzi Croquettes", o grande acontecimento da época (com Lennie Dale, Cláudio Tovar e Cláudio Gaia).
Os Dzi Croquettes fizeram a coreografia de "Adeus fadas e bruxas". Os "Secos e Molhados", "Dzi Croquettes" e "Adeus fadas e bruxas" tinham a mesma coreografia de impacto, o mesmo figurino, a mesma maquiagem. Fizemos sucesso juntos. Foi inesperado! Claro que o público de teatro é sempre menor que o de shows de música popular.

TeatroChik - Os "Dzi Croquettes" eram considerados um grupo da contracultura. O que significava isso?

Com o elenco de "Blue Jeans" (Flávio Guarnieri à frente, no meio)

Ronaldo Ciambroni - Eles eram geniais e ousadíssimos. Numa época em que o preconceito era grande, eles tinham um trunfo na mão, que era a dança. Lennie Dale foi o coreógrafo de "Cleópatra" (filme com Elizabeth Taylor). Aquela entrada de Cleópatra em Roma foi feita por ele. Ele é o índio que vem com a lança dançando na frente do carro com a Liz Taylor. Lennie foi um grande bailarino/coreógrafo e teve seguidores na Europa. Eles juntaram a dança com uma novidade: eram andróginos.

Eram diferentes como o Ney Matogrosso. Eles tinham barba, mas usavam batom. Eles usavam botas com saia, mas tinham pernas peludas. Não eram travestis: eram andróginos. E a ironia deles foi sucesso na época. Hoje eles fazem parte da história, mas eles eram criticados porque protestavam contra o Serviço Nacional de Teatro, que não liberava verba por causa do estilo atrevido.

Cena de "Uma empregada quase perfeita"

TeatroChik - Eles eram transgressivos. Modernos demais para a época.

Ronaldo Ciambroni - Claro. Hoje aquele show seria um grande sucesso. Ainda seria moderno.

TeatroChik - "Uma empregada quase perfeita" está em cartaz há quantos anos?

Ronaldo Ciambroni - Foi engraçada a história dessa peça: eu escrevi para um aluno meu (que hoje é famoso), Wilson dos Santos. Ele fez aquele gay de "Kubanacan" que trabalhava na boate. Mas ele acabou não fazendo a peça. O nome era "Deitando e rolando". Tempos depois, o Carlos Denoni me pediu um texto. Eu disse que não era grande coisa, mas ele resolveu montar. O espetáculo está em cartaz até hoje. Acho que já está no sétimo ano.

Cena de "Acredite, um espírito baixou em mim"

TeatroChik - A peça "Acredite, um espírito baixou em mim" tem alguma coisa a ver com o filme de Steve Martin?

Ronaldo Ciambroni - Nada. E por incrível que pareça, eu não consegui assistir esse filme até hoje. O título não é meu: o nome da peça era "Bofe à milanesa". Na ocasião ninguém sabia o que era bofe (machão bonito, gostoso), a não ser em um ambiente homossexual (os gays usam a língua nagô até hoje para compor um vocabulário todo particular: aqüendar, neca, amapô). E tudo isso eu divulguei muito através das minhas peças. Só que "Bofe à milanesa" não funcionava.

Com Elizabeth Gasper em "A Dona da Bola"

Escrevi uma peça chamada "A Dona da Bola", e Vitor Branco e Hilton Have estavam montando. Meu cunhado fazia a parte técnica e me contou que eles tinham desistido: estavam montando outra. Então eu resolvi montar essa peça (não sabia que eles ainda continuavam o projeto). Quando eu estava para estrear, encontrei o Vitor e fiquei sabendo que iríamos estrear a mesma peça. Então eu prometi a ele uma outra peça (escrevi numa só noite). Às 8h entreguei o texto (dediquei ao Hilton Have, grande amigo).

E eles montaram "Bofe à milanesa". Sabíamos que seria um sucesso, mas o título não era adequado. As pessoas não entendiam a expressão "bofe". Por isso ele mudou o nome para "Um espírito baixou em mim". Eu não gostei do nome porque já tinha um filme com esse título. E ele já tinha mudado o nome de uma outra peça minha para "Nove e meia semanas de amor"! No fim, eu acabo cedendo em algumas coisas. Graças a Deus, o pessoal de Minas Gerais colocou "Acredite, um espírito baixou em mim", descaracterizando uma cópia. O Vitor ficou viajando com essa peça também, que é um grande sucesso em Belo Horizonte. Hoje eles estão em um teatro de 1.800 lugares, lotando todas as sessões. É um fenômeno.

TeatroChik - E, na história, a mulher troca de alma com o homem?

Com Sônia Lima em "A Dona da Bola"

Ronaldo Ciambroni - É totalmente diferente do filme. São três gays que estão indo para uma festa e sofrem um acidente. Um deles morre, e a peça começa quando ele é recebido no céu pelo mensageiro (o espírito dele). E ele não tem consciência de que foi ele quem morreu (e não os outros). Só depois ele percebe que morreu e não precisa mais voltar para a terra (ele é um espírito). Mas ele não quer ficar lá. Então o mensageiro dá uma opção: voltar como alma penada. Ele foge do céu e vai cair num apartamento onde mora um rapaz (que está noivo de uma garota) e o cunhado dele (que está numa fase de não se entender muito bem com a namorada).

Quando ele vê o cunhado do rapaz, fica apaixonado (porque o rapaz é lindo). Mas ele precisa encarnar em alguém para poder tirar proveito da situação. E ele vai encarnar no noivo. E aí começa a confusão, porque o cunhado se apaixona pelo noivo. A mulher fica sem entender nada porque, de repente, o noivo fica feminino. E a direção da Sandra Pêra teve uma grande participação para o sucesso da peça: ela teve bom gosto e não apelou em nada.

Contratou um mágico para fazer truques e muitos efeitos: alguém abre um livro e sai fogo, a máquina de lavar roupa sai andando sozinha, o quadro gira. E os atores trocam de lugar (usando a mesma roupa). Você não percebe quando é um e quando é outro. Quando ele encarna, já é outro ator. É muito divertido. E já escrevi a continuação "A volta do espírito - Os bons tempos voltaram", para estrear neste ano.

TeatroChik - E essa peça está em cartaz em Minas ainda?

Ciambroni caracterizado como Donana

Ronaldo Ciambroni - Sim. Esta semana eles quase fizeram sessão extra num teatro de 1.800 lugares. Eles estão numa campanha durante os meses de janeiro e fevereiro.

TeatroChik - Fale um pouco sobre "Donana" (de 1974), que está fazendo 30 anos em 2004.

Ronaldo Ciambroni - "Donana" é um presente que Deus me deu. Foi logo no começo da minha carreira, em 1974. Este ano ela completa trinta anos. Está em cartaz todo esse tempo, porque eu nunca parei de fazer. O ano passado foi o ano do idoso, e por esse motivo foi gratificante a temporada de 2003. Por causa de "Donana" eu ganhei um teatro com o meu nome. Ganhei o Prêmio de Melhor Espetáculo no Festival de Havana. Representei a mulher brasileira idosa no Senado (como Donana). O congresso da terceira idade escreveu um texto para ela ler perante o Ministro da Previdência (para discutir e reivindicar algumas coisas). "Donana" me ajudou a produzir as outras peças. É uma grande alegria para mim.

TeatroChik - Quando você sensibiliza as pessoas ocorre uma mudança de comportamento.

Cena de "Donana"

Ronaldo Ciambroni - É claro. As pessoas perguntam: "Porque você não fez o contrário? Começa pela parte dramática e termina com a cômica, para todo mundo sair rindo?" Eu falei: "Não, é o contrário. Eu preferi primeiro a parte cômica para as pessoas conhecerem a personagem. Depois é que eu apresento a realidade dela". Eu acho que o grande trunfo da peça é isso. Da metade em diante ela se transforma num drama, provocando uma reflexão sobre a situação do idoso.

TeatroChik - Tem uma peça sua chamada "Geração Coca-Cola". Tem alguma coisa a ver com aquela música do Renato Russo?

Ronaldo Ciambroni - Eu a escrevi há muito tempo. Na época o Wolf Maya ia dirigir. Em seguida surgiram vários textos de novela falando dos anos 50 e 60. A peça mostra como ficaram perdidos os personagens daquela época querendo seguir Elvis Presley, uma coisa tão distante da nossa realidade. Eram cinco casais, em cada história um sonho. A menina queria ser miss (naquela época era importante). As histórias eram costuradas por uma outra: o sonho de ganhar um concurso de música.

TeatroChik - Você escreveu esquetes para a Gorete Milagres em "Ô coitado!" (em 1999 e 2000). Como foi essa experiência?

Com Gorete Milagres no programa "Ô, Coitado!"

Ronaldo Ciambroni - Eu tive essa alegria. Muita gente acha a Gorete antipática, mas comigo ela sempre foi gentil, graças a Deus. Até hoje ela me convida para escrever os textos dela. O Eduardo Lafon (diretor do SBT) me chamou para escrever novelas, mas como não tinha nenhuma, eu fui convidado a criar os textos dos programas de humor. Ele disse: "Você escolhe: tem a Dercy Gonçalves ou a Gorete Milagres." Como eu sempre fui fã da Dercy e tenho medo de me decepcionar com os ídolos (e alguns eu realmente me decepcionei), então eu não quis fazer. Falavam que ela tinha um temperamento muito difícil.

No tempo em que eu estava escrevendo "Ô Coitado!" para a Gorete, três ou quatro diretores, e dois ou três autores saíram do programa da Dercy. Acho que fiz a escolha certa. A Gorete me recebeu com muito carinho e combinamos bem no trabalho. Fiquei um ano e meio escrevendo o programa dela.

TeatroChik - A Irene Ravache disse uma vez que preferia deixar os ídolos dela intocáveis, sem conhecê-los pessoalmente, para evitar uma decepção.

Ronaldo Ciambroni - Eu também sou assim. Tenho alguns mitos. Na música é Maria Bethânia. Tenho uma paixão muito grande por ela. Nunca tive a oportunidade de ser amigo dela ou de me aproximar, mas sempre tive muito medo. Dercy Gonçalves também. Fernanda Montenegro é outro mito, mas dizem que ela é simpática. Tive a oportunidade de conhecer Marília Pêra e de vê-la trabalhar ("Acredite, um espírito baixou em mim" virou filme e vai ser lançado este ano). Ela faz a mãe do espírito. Ela foi generosa comigo. Pediu para que eu escrevesse uma sitcom para ela. Tivemos um relacionamento muito bacana. Tenho até medo de um dia me decepcionar, mas acredito que não.

E são pessoas assim que me dão medo. Bibi Ferreira inaugurou este teatro (do Centro Cultural Santo Agostinho). Eu tenho a honra de ter uma foto minha no saguão ao lado da foto dela. Mas também sou um ator-tiete. Eu consigo separar isso, porque eu me sinto pequeno perto desses mitos (eu me comporto dentro de um certo limite).

Elenco de uma das montagens de "Romeu e Romeu"

TeatroChik - Fale um pouco daquela peça "Romeu e Romeu". Assisti à peça e gostei muito.

Ronaldo Ciambroni - Foi uma adaptação. Hoje eu nem sei quem é crítico de teatro, mas na época o crítico era muito importante para mim. Quem escrevia era Clóvis Garcia, Carlos Godoy, Paulo Lara. Eu morria de medo deles falarem mal de uma peça minha. No começo da minha carreira, eu tive a sorte de receber críticas favoráveis. Mas eu era muito rotulado, como todo mundo. Eu ajudei no processo de transição das grandes musas do cinema nacional (pornochanchada) para o teatro: Zaíra Bueno, Helena Ramos, Patrícia Scalvi, Zilda Mayo, todas elas fizeram minhas peças. Elas faziam sucesso como as atrizes da Globo hoje. Por causa disso, fui rotulado como autor de atrizes de pornochanchadas.

Depois, com "Donana", fui santificado. Ganhei respeito e credibilidade. Tem a "Terezinha de Jesus", que foi um grande sucesso na minha carreira como autor e ator. Eu fazia um travesti. Em seguida veio "Romeu e Romeu". Por causa dessas peças, eu era considerado o autor que só escrevia sobre temas gays. Fui muito rotulado. Como fiz sucesso com o teatro infantil, então eu era o autor de peças infantis. Até chegar a dizer: "Agora chega. Eu já mostrei o meu trabalho, eles que me rotulem do que quiserem, mas eu vou fazer o que eu gostar ou tiver vontade".

Ciambroni em "Terezinha de Jesus"

"Romeu e Romeu" foi dessa fase de temas gays. Peguei "Romeu e Julieta" e adaptei todas as cenas, só que com dois rapazes. Mostrei o mesmo preconceito dos pais e da sociedade, mas escrevi o desfecho de uma forma positiva. Sempre tive essa preocupação: a de colocar o homossexual (dentro dos meus textos) como um indivíduo digno.
Em "Uma empregada quase perfeita", o personagem gay sai ganhando também. Nunca fui preconceituoso com a mulher. Acho que esse é o grande trunfo de "Acredite, um espírito baixou em mim". Defendo a mulher, e também nunca deixei o gay numa situação ridícula.

Antes, nas peças, era assim: o homossexual era o coitado, o ridicularizado. Com "Romeu e Romeu" eu quis mostrar um relacionamento bonito. Na época eu preferi que os atores fossem másculos, e de forma alguma isso foi preconceito (porque chegaram a levantar isso). Procurei mostrar para uma espectadora preconceituosa que dois homens podem se amar. Queria que ela torcesse pelo romance deles. "Terezinha de Jesus" tinha esse aspecto também. Em "Romeu e Romeu" foi assim na primeira montagem. A segunda e a terceira também foram ótimas, mas já não tinha mais essa preocupação. Porque já era uma outra época.

Com Zilda Mayo em "Nua na platéia"

TeatroChik - Como era a peça "Golpe certo"?

Ronaldo Ciambroni - O título foi trocado. O nome original era "Nua na platéia". A Zilda Mayo atuou na peça durante muitos anos, junto com o Raymundo de Souza. Na montagem do ano passado com a Ana Claudiah Vidal (de "As Filhas da Mãe"), ele pediu para mudar o título. Achava que o público poderia se assustar, imaginando uma mulher sem roupa na platéia. E como a peça não tem nenhum apelo de baixo nível, trocamos para "Golpe certo". Eles fizeram uma temporada no ano passado, agora deram um tempo. E a Ana Claudiah voltou para trabalhar comigo.

TeatroChik - Comente um pouco sobre "As Filhas da Mãe" (a sua peça e a novela da TV Globo).

Ronaldo Ciambroni - Não sei exatamente o que aconteceu. Só sei que em 1983 estreei "As Filhas da Mãe" e o Silvio de Abreu assistiu à peça. Foi ao camarim, me cumprimentou, foi simpático. Depois de um certo tempo, li uma reportagem sobre a Cláudia Raia. Ela iria começar a gravar a novela "As Filhas da Mãe" e seu personagem era um homem travestido (o terceiro filho). Eu levei um susto, porque a drag queen Telma Lip fazia esse personagem na minha peça. Antes da estréia da novela, pedi para o meu advogado avisar à TV Globo que já havia uma peça com esse título.

Ciambroni e elenco de "As Filhas da Mãe"

Na época a TV Globo me ofereceu dez mil reais para usar o título, mas meu advogado disse não. E a novela estreou com o título "A incrível batalha das filhas da mãe no Jardim do Éden". Eu senti como se o Silvio de Abreu mandasse um recado para mim: "Olha, o título é 'A incrível batalha das filhas da mãe no Jardim do Éden', viu?"

O Eduardo Lafon mudou o título de minha novela "Por Direito" para "O Direito de Vencer". Eu não gostei, porque lembrava "O Direito de Nascer" (clássico da teledramaturgia brasileira). Título para mim é um inferno! E, no fim, a novela ficou conhecida como "As filhas da mãe", mesmo. Entrei com um processo porque o enredo era muito parecido, e eu queria continuar a usar o meu título. Em uma primeira instância, o juiz considerou o título uma expressão popular.

Achei absurdo, porque as pessoas dizem "aquela filha da mãe". "As Filhas da Mãe" é um título, e não uma expressão popular. Recorri e estou esperando uma resposta da justiça. As pessoas acham que estou copiando a novela! Essa história causa prejuízos para mim quando preciso pedir patrocínio. Acho que mereço uma atenção da justiça, se é que ela existe.

TeatroChik - A peça "Uma certa Carmen" fez muito sucesso? Quanto tempo ficou em cartaz?

Roberto Nogueira e Ciambroni em "Uma certa Carmen"

Ronaldo Ciambroni - Eu atuava em "Terezinha de Jesus", e tinha um momento em que ela cantava numa boate vestida de baiana. E quando acabava a peça, todos diziam: "É a cara da Carmen Miranda, embora você seja mais alta do que ela". E aí fui fazer uma pesquisa sobre a vida da Carmen. Achei muitas coincidências: o número da casa dela era o mesmo que o meu; o nome da minha mãe é Carmen; minha mãe era chapeleira como ela; meu pai era barbeiro como o pai dela; ela perdeu um filho quando eu nasci. Foram tantas coincidências!

E a melhor delas: minha irmã estava grávida e sugeri o nome de Carmen para o bebê (já sabíamos que seria uma menina). E a menina nasceu e morreu exatamente no dia em que morreu a Carmen Miranda. Isso me deixou muito alucinado pelo trabalho. Desde que David Sebastian (o marido de Carmen) soube que um homem iria fazer o papel dela, ele proibiu. Eu tive todo o apoio de Aurora Miranda (irmã de Carmen). Ela dizia: "Não tem nada a ver. Adorei o texto. Você não está denegrindo a imagem de minha irmã. O que você colocou está muito bom".

E eu montei o espetáculo, que custou uma fortuna. Prometeram uma verba da Secretaria de Cultura do Paraná, que nunca se concretizou. Tive que procurar outras formas de pagar essa produção. E foi a primeira vez que alguém dramatizou a vida da Carmen. Porque até então a Marília tinha feito no "Night and Day" a trajetória, mas só as músicas. Não havia um texto sobre a história dela. Eu tive a alegria de ser o primeiro a personificar Carmen Miranda.

Cena de "Uma certa Carmen"

Uma vez, um acontecimento me emocionou: no fim do espetáculo, uma figura se levantou da platéia e subiu ao palco (e nós morrendo de medo sem saber o que aconteceria). Vimos depois que era o Clóvis Bornay! Ele se dirigiu ao microfone (sem pedir licença) e disse: "Eu duvido que esse rapaz (eu, no caso) tenha conhecido a Carmen. Ele não poderia, pois os trejeitos dela, só os amigos conheciam. Eu estudei no jardim de infância com ela e acompanhei sua trajetória. Eu era amigo íntimo de Carmen. Estou emocionado! Ele é a reencarnação da Pequena Notável".

Eu comecei a chorar no palco, e o elenco inteiro se abraçou. Foi o maior elogio! Depois fiquei endividado, porque a produção era muito cara (fiz muitas sessões de "Donana" para pagar as dívidas). Até que parei de fazer a peça, engordei, envelheci. Tempos depois, a Secretaria de Cultura de Mauá me pediu que eu fizesse um espetáculo da Carmen no aniversário de 90 anos de nascimento dela. Como eu já não tinha mais o físico do papel, resolvi modificar o espetáculo.

Vi uma foto dela em seu funeral e outra na capa da revista Manchete, com um tailleur vermelho, gordinha e loira. Tive a idéia de fazê-la com essa idade, resgatando sua história. Fiz um monólogo, que se chamava "Além dos balangandãs", com a Carmen já mais velha. Porque se eu aparecesse de baiana e gordo, não teria problemas. As pessoas gostaram muito, e a revista Veja publicou uma crítica muito favorável. E eu acho que deu mais resultado do que se fosse um espetáculo maior, com 20 pessoas.

Como Carmen Miranda em "Além dos balangandãs"

TeatroChik - Quais são seus projetos para 2004?

Ronaldo Ciambroni - Este ano estou com muitos projetos. Um programa infantil para a TV (talvez um trabalho como ator). Um grande sonho é "Daddy", um musical. Eu fui um pouco criticado (e também elogiado) por fazer muitos personagens femininos na minha carreira.
Na peça "Resgate" eu faço um bandido. É muito engraçado que as espectadoras dessa peça gostariam que eu fizesse um personagem feminino. Mas eu sou um ator. Faço papéis de homem e de mulher.
É uma pena que os produtores de TV não me chamem para fazer personagens masculinos. Gosto de interpretar mulheres (fiz muito sucesso com elas), mas sempre fiz papéis de homem. Sou um cabide para qualquer personagem.

(13/02/2004 - Atualmente, Ronaldo Ciambroni está em cartaz com a peça "As Filhas da Mãe")


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