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teatrochik / estrevista com Rachel Brumana


ENTREVISTA COM RACHEL BRUMANA
por Alberto Nishitani
alberto@teatrochik.com.br
Rachel Brumana em A Noite de Molly Bloom

"Eu me sinto meio nômade: não fico muito num lugar, estou sempre em busca de alguma coisa."

Encontro com Rachel para uma conversa sobre "A Noite de Molly Bloom". Esta entrevista também foi no sofá do camarim do TUSP (entrevistei Rodrigo Gaion de Oliveira nesse mesmo lugar), com Rachel meio longe para não me incomodar com o cigarro (ela perguntou se poderia fumar e eu disse que sim).

TeatroChik: Quantos anos você tem e quando começou sua carreira?

Rachel Brumana: Tenho vinte e sete anos. Comecei como bailarina. Dancei até os dezessete anos e depois fui fazer Artes Cênicas na Unicamp em 1994, dando início à minha carreira como atriz. São quase dez anos. Assim que terminei a faculdade fui para a Itália, morei e trabalhei lá dois anos. Estou há três em São Paulo.

TeatroChik: Qual foi seu primeiro espetáculo?

Rachel Brumana: "A Peste", dirigido por Cacá Carvalho (em Campinas). Além de ter sido minha estréia profissional, foi um de meus trabalhos mais significativos.

TeatroChik: "Ofélia em Off" (2003) era uma peça de um grupo chamado Kaoz. Você era desse grupo?

Rachel Brumana: Participei desse espetáculo como atriz convidada. Esse grupo veio também da Unicamp, e inauguramos a Casa das Caldeiras como espaço teatral. A peça usava diversas linguagens (circo, vídeo). Era interessante.

TeatroChik: Que papel você fazia?

Rachel Brumana: Ofélia. Eram cinco Ofélias. Cada uma representava um ponto de vista diferente.

TeatroChik: Qual era a estrutura da peça? (Além da protagonista ser desdobrada em cinco, a narrativa era baseada em cartas que ela escrevia para o irmão.)

Rachel Brumana: Era um ponto de vista da tragédia de Ofélia, por ela mesma. Todas as fases pelas quais passou até chegar à Ofélia-Máquina de Hamletmachine (Heiner Müller).

Rachel Brumana no espetáculo Ka

TeatroChik: Tem um livro e uma peça chamada "Ka" (1998). Como era essa peça?

Rachel Brumana: "Ka" foi muito importante para mim porque foi meu espetáculo de formatura, dirigido por Renato Cohen (falecido recentemente). Foi um dos espetáculos mais radicais da Unicamp em termos de linguagem (performance). Influencia meu trabalho até hoje. A direção de Cohen era muito forte e considero um divisor de águas para mim. Passei a me preocupar menos com linguagens expressivas e mais com expressão, comunicação.

TeatroChik: Como funciona o Nucleosuspeito?

Rachel Brumana: Não é uma companhia, é um coletivo artístico. O núcleo central é o Alvise Camozzi, eu, Christine Rhörig, Rodrigo Gaion de Oliveira e Camila Guerreiro (videomaker). Começamos com reuniões para estudar Heiner Müller. Christine fez várias traduções dele. Ela e Camila foram para Berlin rodar um documentário, que estamos concluindo aqui.
Agora estamos fazendo este espetáculo e a Christine dirige uma oficina de teatro (workshop) aqui no TUSP.
Qualquer manifestação artística não tem uma só vertente ou ponto de vista. O cenógrafo é um artista plástico que propõe instalações, a trilha é de um músico que propõe sons. Nada é sob encomenda. Não existe hierarquia. É uma maneira de produzir e pesquisar arte sem determinar o setor. É tudo 'contaminado'.

TeatroChik: A companhia do Renato Borghi (Teatro Promíscuo) trabalha como vocês?

Rachel Brumana: Eles são uma companhia. Nós não. Às vezes uma companhia de teatro tem esse problema de ficar procurando espaço ou esperando por um diretor. A criatividade fica ociosa e não vai para nenhum lugar. Um dramaturgo ou um videomaker que queira participar do grupo é sempre bem-vindo. Agora temos uma orquestra de vinte pessoas! Nada é fechado. Os acontecimentos são cíclicos.
Além desse espetáculo, temos duas oficinas de teatro. No final da oficina da Christine, teremos uma apresentação dos alunos com essa orquestra. É misturado: música + dramaturgia.

TeatroChik: Fale sobre "A Noite de Molly Bloom". Como surgiu esse projeto?

Rachel Brumana: Existe desde 2000. Eu estava na Itália e encontrei o José Sanchis Sinisterra (dramaturgo). Há quatro anos eu esperava por isso. Trocávamos correspondência e, finalmente, participei de um seminário internacional dele. Eu estudava o monólogo do livro "Ulisses", de James Joyce. Apresentei meu trabalho e ele falou assim: 'as palavras são bonitas, mas onde você está? Qual o contexto? Quem é essa pessoa? O que ela está falando?'. Falou tanta coisa que fiquei constrangida.(risos) Contou que tinha escrito uma adaptação desse texto. Pedi para ler, mas disse que eu ainda não estava pronta.
Dois anos se passaram e um dia recebi uma ligação: ele estava mandando o texto para eu montar. Daniela de Vecchi traduziu e fizemos a adaptação para estrear em 2004, possivelmente com a presença dele.

TeatroChik: Esse trabalho é um work-in-progress. Ele vai chegar a um formato ideal, definitivo?

Rachel Brumana: Não sei. Tem um aspecto importante, que é: o espetáculo já existe, não são ensaios abertos. Tem uma produção, uma proposta, uma linguagem. Queremos é ampliar tudo o que estamos propondo. Trabalhar com mais tempo, com colaborações mais efetivas. A cada dia descobrimos uma coisa que pode ser modificada. Todo espetáculo é um pouco assim. Mas, para o ano que vem, vai ser um grande salto (uma produção maior). Estamos falando com Barcelona. Talvez uma co-produção.

Rachel Brumana no curta-metragem 9:32 AM

TeatroChik: Fale um pouco sobre o Alvise Camozzi (o diretor da peça).

Rachel Brumana: Trabalhamos juntos desde 2000. Fizemos espetáculos juntos na Itália, depois eu o dirigi. Vim para o Brasil, ele veio em seguida. O primeiro núcleo foi esse. Nossas produções têm autonomia. Ele tem uma carreira na Itália e vir para cá foi um salto no escuro. O Alvise tem uma maneira diferente de trabalhar. Ele pontua muito em cima do ator, embora o resultado pareça de encenador. Ele é um diretor de atores (ele era ator antes).

TeatroChik: É muito diferente quando o diretor também é ator?

Rachel Brumana: Eu acho. Tem pontos positivos e negativos. Existe uma linguagem comum, é muito mais fácil porque ele entende a técnica usada na cena. Ao mesmo tempo, como ele é ator, tem sempre a história dele querer te mostrar como se faz.

TeatroChik: Você pensa em fazer cinema ou televisão?

Rachel Brumana: Tenho experiência só com curta-metragem. Gosto da linguagem. Quero experimentar. No teatro o ator tem domínio total da cena, e no cinema ele está a serviço do diretor: ele é uma peça no meio do jogo.

TeatroChik: Quais os futuros projetos do Nucleosuspeito?

Rachel Brumana: Tem a conclusão de "A Noite de Molly Bloom" para 2004, que é quando se comemora o Centenário do Bloomsday (16/06/1904, dia da odisséia de Leopold Bloom). Estamos em contato com a Itália e Espanha para produções futuras, e estamos voltando ao projeto antigo de Heiner Müller.

TeatroChik: Fale sobre alguma coisa que te deixou impressionada e mudou sua vida.

Rachel Brumana: Este ano eu concluí muitos projetos. Chegar a este Ulisses do Joyce. Fechar a última página do livro e começar a montagem desta peça. Dúvidas foram esclarecidas. Eu me sinto meio nômade, uma viajante. Há muito tempo eu não parava num lugar, estava sempre em busca de alguma coisa. Essa coisa feminina da espera. E de achar que é do outro lado é que está acontecendo alguma coisa.
Parar esse processo, concluir e transformar tudo isso num produto (uma produção independente em parceria com o TUSP). Este trabalho é uma viagem sem fim. E essa história de amor mítica... Chegar a este resultado é esclarecedor.


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